Coluna Surfocrata: A Morte Ronda

“Até hoje não compreendia por que o futebol é um criador de multidões e o surf, não. E, no entanto, se compararmos uma modalidade e outra, verificaremos o seguinte: – o surf é muito mais bonito e devia ser muito mais apaixonante. Tudo o valoriza: – o mar, o horizonte, a prancha, a onda, o céu. De resto, a figura do surfista tem, atrás de si, um tremendo passado oceânico. Não importa que, por vezes, ele sulque as águas cordiais e sedativas de um beach break, como o nosso Postinho. Seja como for, o surfista está ungido de sal, de vento, de Sol, de Lua, como os nautas camonianos. Como explicar que a multidão prefira uma simples pelada à bateria mais emocionante?”
Roubei e adaptei essa introdução da cronica publicada em 21/07/56 por Nelson Rodrigues na Manchete Esportiva. Ele comparava o futebol ao remo, mas a comparação é válida e poética. O episódio ocorrido com Mick Fanning na última etapa, na Africa do Sul, me remeteu imediatamente a esta comparação e, principalmente, a esta dúvida.
O ataque de tubarão mais documentado da história me trouxe medo, pânico, heroísmo e realidade. O surf foi imediatamente promovido ao assunto mundial do momento e, ao menos para mim, mostrou uma face humana que a maioria dos esportes mundiais não tem, mesmo que queiram ter.
Aproveito a analogia do mestre para comparar o esporte dos reis havaianos ao automobilismo, mais especificamente a F-1 e seus riscos. Nesta semana, infelizmente, se confirmou o falecimento do jovem piloto francês, Jules Bianchi, em decorrência dos ferimentos que sofreu num acidente durante o GP do Japão de 2014.
Dois dias depois vemos os pilotos “unidos” no enterro e toda a comoção intrínseca ao momento. Contudo, naquele esporte, isso foi conquistado pelos pilotos/atletas, literalmente, na base do sangue. Foi necessário mortes e mais mortes para que finalmente, quando um campeão, um ídolo máximo do esporte pagou o preço com a vida que as autoridades da FIA tomaram realmente as rédeas da segurança a sério e mudaram o esporte, que ainda longe da perfeição, ceifou mais uma vida 20 anos depois. Ou seja, há espaço para melhoras, sempre.
O surf, ao meu ver, foi abençoado com o alerta antes da tragédia. Foi como se as sirenes de tsunami soassem a tempo. Amigos, eis a verdade. Mick só esta vivo porque Deus quis. O tubarão, como dizem especialistas não atacou de fato Mick, e se quisesse atacar estaríamos agora lamentando.
Agora, ao contrário do que geralmente faço, bato palmas para a atitude da WSL. O Surf deu uma lição de humanidade ao paralisar a final e, melhor ainda, cancelar a disputa, declarando os participantes igualmente perdedores.
Esqueçam o erro da regra ao ignorar 1000 pontos para cada, caso a divisão de pontos ocorresse da mesma forma que a divisão do premio (o que acabou beneficiando Mineiro). Esqueçam as atuações dos atletas até ali. Esqueçam que KS lembrou que era KS nessa etapa, voltando a fazer coisas que só KS faz. E o mesmo vale para Medina. Esqueçam que Wiggoly esta mostrando que tem mais que estilo, tem classe. Esqueçam que Filipe perdeu para o mar e não para o renovado “élan” de Alejo.
Mas lembrem que o CEO da entidade (aquele mesmo que acha que o careca faz mais de 20 milhas ano, que Cloudbreak quebra sobre corais localizados a 5 cm de profundidade e que acha que o Brasil inteiro acompanhou a final do Filipe ao vivo pela TV), compareceu, em pessoa, para consolar a mãe de Ricardo dos Santos, tão logo soube do atentado.
Lembrem que a decisão de cancelar a final em JBay pode muito bem ter salvado a vida dos atletas envolvidos e o esporte como um todo. E que esse “aviso” de Deus deve ser ouvido, para buscar tecnologias e procedimentos que aumentem a segurança para este tipo de caso, não só em JBay, mas em todas as etapas.
Justamente pela elogiável atitude da WSL é que acho precipitadas declarações como a de Jadson André e Gabriel Medina apoiando o cancelamento da etapa no próximo ano. Ora, por tubarões não poderemos ter etapas na Australia, Hawaii, California e até Brasil, onde não estamos livres de um ataque de tubarão.

O que ocorreu com Mick em Jbay deve ser absorvido e usado como incentivo no estudo e melhoria da segurança do esporte e não para retirar do calendário uma onda do nível

Compartilhe...Tweet about this on TwitterPin on PinterestShare on Google+Email this to someoneShare on FacebookShare on LinkedInShare on Reddit

Ivo Surfocrata. Pai, Atleticano Paranaense, Advogado, Surfista, Festeiro, Marrento, Bebedor de Cerveja, Curitibano, Metido a Comentarista de surf e de automobilismo, criador do blog surfocracia e iludido pela justiça.

Login

Anti-Spam, Porque Por favor, responda a questão! *