Coluna Surfocrata: Adriano, o Imperador

ADRIANO

Passando ao largo, neste primeiro momento, da patética atuação arbitral na etapa de Trestles, foco minha atenção no personagem Adriano de Souza.

O que esse rapaz faz neste ano de 2015 no circuito mundial de surf é coisa digna de filme, de novela da Globo, de lendas, daquelas contadas tantas vezes que daqui a 1000 anos o pequeno local do Guarujá será descrito como um Aquiles sobre a prancha. E isso tudo sem mencionar seu adversário direto, seus 3 canecos, seu treino, tenacidade e principalmente seu espaço na mídia em comparação a Adriano.

Os próprios gringos já identificaram a injustificada falta de visibilidade do então número um do mundo, reforçando a ideia de que Adriano é hoje, de fato, o melhor competidor do mundo. E essa ideia foi comprovada nesta etapa. Mesmo não sendo o melhor na água, na base da raça que o caracteriza, fez a final, eliminando na semi final o provável vencedor da etapa, Filipe Toledo.

Em coluna passada cheguei a afirmar que, dentro de uma normalidade, Toledo venceria em Trestles, não contava esse iludido escriba que o jovem Filipe esbarrasse com uma das suas (poucas) kriptonitas, Adriano de Souza.

Mineiro tem poderes mentais! Acreditem! KS, Medina, Julian Diva e Toledo são apenas alguns exemplos de vitimas contumazes dos poderes de Adriano.

Pena que Fanning não se encontra neste rol de vítimas. Ao contrário, Mick é imune à Mineiro. Prova disso é a primeira onda da final, que Mick apanhou sem maiores contestações de Adriano, coisa praticamente impossível de ocorrer se o adversário fosse outro. Aliás, Mineiro fez escola nesse quesito, vide interferência de Nat “sabe de nada inocente”Young sobre Medina. Isso é didática Mineira de primeiríssima qualidade.

Mas voltando à final, Mineiro liberar a primeira onda é prova irrefutável da imunidade de Mick aos poderes de Adriano, e mais, prova um certo “temor reverencial” do brasileiro para com o ozzie tri campeão do mundo. Disse temor, mas me corrijo. Há, em verdade, um respeito para um dos poucos sujeitos que consegue ser competidor e humano em medidas extremas e ao mesmo tempo.

Mineiro fez uma final digna de concorrente ao título mundial. Honrou a amarelinha como não fazem por aqui desde o título mundial de 2002 e apesar da supervalorização das notas de Fanning, creio que realmente saiu derrotado da bateria. Ao menos não terá os 300 kg extras da amarelinha na próxima etapa.

Mick surfou ondas melhores que as de Adriano, embora ache que a melhor de Adriano tenha sido melhor que a maior nota de Fanning. Na marola do brasileiro houve mais agressividade e inovação, enquanto na de Mick houve mais conexão e força.

JULGAMENTO

É difícil entender um julgamento que ama as rasgadas de Fanning (perfeitas, diga-se) mesmo que mais repetidas que “sessão da tarde” e odeie os aéreos na junção de Jadson, por serem mais repetidos que “vale a pena ver de novo”. Respeito muito um carve bem feito, mas não discuto que um aéreo na junção (ou em qualquer lugar da onda), igualmente bem feito, implica em muito mais risco. É muito mais fácil errar uma manobra aérea do que uma manobra de borda.

Por isso que minha crítica aos “julgadores” fica especialmente nas semi finais. Antes dela as apostas eram em Filipe e Medina. Apostas condizentes com o local da disputa e o que vinha sendo valorizado até ali, mas…

Houve uma mudança de critério de uma fase para a outra. Como legítimo crente da teoria da conspiração não tenho como fugir da impressão que tive enquanto assistia as semis. A WSL quis que o número 1 e 2 do mundo fossem para a final.

O 7,30 que Filipe precisava no último minuto não foi dado porque Porta não quis. Aquela onda valia 7,30 em qualquer fase do evento, menos naquela semi final. E o que dizer então das notas de Medina após dois aéreos perfeitos, com inovação, velocidade, fluidez, link entre manobras e o diabo?

De qualquer sorte, foi um bom resultado para ambos. Filipe se mantém na corrida ao título do mundial e Medina se coloca nela.

Mas as questões controversas não pararam por ali. Deu muito pano pra manga a discussão sobre o melhor 4,17 da história do surfe competição (aquele que junta amador, profissional, masters, junior, várzea e videogame). Não há na história um 4,17 tão impressionante. Seja pela felina recuperação do sanguinolento, seja pela reação do público ou seja pela nota. Fato é que ele caiu. Não se discute isso. Tá na regra, também não se discute isso.

O que discuto sim, é o porque não aproveitar que a subjetividade também está na regra e utiliza-la para um caso raro desses? Quando um erro não parece um erro, por pura ação do atleta, por pura mágica e talento do melhor de todos os tempos?

Não entendo que abriria um precedente grave porque foi um lance de mágica, um lance que não se repete nunca mais, nem com Slater…enfim. Muito se falou na net sobre isso, como por exemplo: surfline, tracksmag the inertia.

E o que dizer da interferência do Nat Jovem? Me parecia mais justo marcar interferência dupla, ou nenhuma interferência. E o infeliz do Zietz? Me parece um caso claro para justificar a criação de um sistema de aviso do fim da bateria diverso do sonoro. Uma pulseira que vibre ao fim da disputa poderia fazer com que o havaiano parasse de remar e não entrasse na onda que gerou uma interferência que simplesmente destruiu a parte esportiva da conquista do Bourez. Bom senso, é como canja de galinha…não faz mal a ninguém.

Sendo justo, vale lembrar também da vitória do Filipinho na fase 2 na lista de julgamentos discutíveis.

BRASILEIROS

Os demais brasileiros fizeram valer o apelido de tempestade (que tem gerado mais assunto do que devia…) e sem exceções surfaram muito. A primeira bateria da fase 4, só entre nacionais foi daquelas para gravar, para parar o que estava fazendo, sentar e observar o espetáculo. Os 3 atletas fizeram médias acima de 8 pontos num verdadeiro show de surf moderno, veloz e agressivo. Do clássico surf base lip de Miguel aos aéreos rodando de Ítalo, venceu Toledo que mesclou rasgadas fortes com aéreos altos e controlados.

Jadson, com médias acima de 7 não conseguiu passar por Miguel e Thomas Hermes quis arriscar demais contra o campeão do mundo, foram as baixas na fase 2, depois disso foi só alegria verde e amarela até as quartas.

Ítalo perdeu um pouco de terreno para Wiggoly na disputa do Rookie of the Year, embora ainda lidere a peleja com folga. Surfou muito durante o evento, mas no confronto direto, o ubatubense estava mais encaixado, surfando mais forte e escolhendo melhor suas ondas. Guigui por sua vez, foi barrado por Mineiro e seus já mencionados poderes mentais.

Pupo fez seu melhor evento desde a primeira etapa do mundial 2015. Surfou muito, a ponto de deixar exposto alguns erros recorrentes. Em pelo menos 2 oportunidades caiu em momentos cruciais da bateria. Contra Joel perdeu tentando acertar, procurando a melhor onda, que acabou não vindo.

Por fim, vale lembrar que independente de teorias conspiratórias estamos no meio de um ano excelente para o surf competição. A disputa esta linda com um nível elevadíssimo e com personagens fantásticos. Que venha a Europa!

Compartilhe...Tweet about this on TwitterPin on PinterestShare on Google+Email this to someoneShare on FacebookShare on LinkedInShare on Reddit

Ivo Surfocrata. Pai, Atleticano Paranaense, Advogado, Surfista, Festeiro, Marrento, Bebedor de Cerveja, Curitibano, Metido a Comentarista de surf e de automobilismo, criador do blog surfocracia e iludido pela justiça.

Login

Anti-Spam, Porque Por favor, responda a questão! *