Coluna Surfocrata: Leão Novo, Leão Velho

Eu poderia aqui cansar o amigo leitor com um resumo do campeonato (heats on demand faliu esse ramo). Poderia falar do Karma do Joel, que mentiu sobre estar com o joelho machucado para não vir ao Brasil só para estourar o joelho em Fiji. Poderia tecer comentários sobre a rabeada do Medina sobre Jordy e como a WSL divulga isso mesmo sob seu estado de aparência “todos felizes” propagado como se fossem de fato, uma família feliz e unida pelos sagrados laços sanguíneos.

 

Poderia só falar sobre como o Adriano de Souza faz por merecer onde está, ao declarar que ficaria em Fiji por algumas semanas após o campeonato, “para aprender”. Poderia falar sobre a terceira final do Wilko, decepcionando um pouco os haters (como eu) do seu surf, e da expectativa que a profecia do cavalo paraguaio se torne real. E em como Matt e Micro tem dado certo seguindo a escola Mineiro de Dedicação e Superação no Surfe (Aprimoresurf Vol. 1).

 

Adriano de Souza foto: Ryan Miller

Adriano de Souza foto: Ryan Miller

 

Poderia falar das ondas, e do peso que Cloudbreak e sua perfeição não demonstram (Ace e Adriano ficaram mais da metade das baterias em que foram derrotados embaixo da água, tomando séries na cabeça). Poderia falar de como Filipe fica exposto em ondas pesadas para a esquerda e em como parece realmente que ele poderia treinar mais nesse tipo de situação, tomando Mineiro como exemplo.

 

Poderia também falar dos brasileiros, dos que foram bem como o campeão do evento, Mineiro, Guigui e Jadson e dos que foram mal como Pupo, Filipe e Alejo, que tinham a bateria nas mãos, e perderam precisando de pouco para a virada, além dos “injustiçados”, que perderam surfando bem como Ítalo e Caio e falar daquele que ainda não mostrou ao que veio, Alex Ribeiro (sua próxima chance de passar uma bateria será somente em Trestles).

 

Poderia, por fim, falar do monumental garfo sobre Taj e da situação em que a WSL pôde avaliar se daria a virada para o aposentado ou mantinha a vitória para um concorrente direto ao título. Poderia ainda, escrever um texto apenas sobre esta bateria, Taj x JJ, clássica em todos os sentidos.

 

Mas não, prefiro desta vez destacar o grande encontro desse evento. Todos esperavam por baterias entre Medina x JJ, ou JJ x KS, ou KS x Mick ou ainda Medina x Mick…o único que rolou, entre favoritos foi a primeira semi final entre Gabriel Medina e Kelly Slater.

 

Quem acompanha o mundial de Moto GP esta bem acostumado com a expressão: Leão Novo e Leão Velho. A dupla do Sportv que narra o circuito mundial de motociclismo possui rara sintonia e é das transmissões mais agradáveis de serem assistidas na TV brasileira.

 

E a expressão, comumente utilizada pelo locutor, refere-se sempre às batalhas entre o Leão Novo (Marc Marques) e o Leão Velho (Valentino Rossi), e cabe como uma luva para descrever uma batalha entre Kelly Slater e Gabriel Medina.

 

Ultrapassemos o clichê da “troca de guarda”. O que temos aqui supera em muito isso. Trata-se, em verdade, de um encontro que nos apresenta e busca decidir quem manda no pico. JJ faz o diabo ali em Cloudbreak, mas ninguém parece dominar a onda e “conhecer cada pedaço de coral” como a dupla de leões KS e GM.

 

Uma revanche da final de 2012, em condições similares, contudo, naquela oportunidade, Medina ficou sem achar a segunda onda boa, e precisava de uma onda acima dos 9 pontos para promover a virada sobre o careca. Era a primeira aparição do garoto dourado de Maresias no pico. A intimidade com uma das ondas mais pesadas do planeta foi instantânea e o segundo lugar foi considerado como bom resultado.

 

4 anos e um título mundial depois, Gabriel não é mais desses que acha que o segundo lugar é aceitável e o careca não bota tanto medo quanto antes. É bom lembrar que KS vinha fazendo um campeonato exemplar, como há muito não se via. E tinha abotoado um fragilizado W. Dantas na bateria anterior com um somatório acima dos 18 pontos.

 

“Examinemos a vitória do Gabriel sobre o KS. Antes de mais nada, o escore que, na sua simplicidade numérica, não define a monstruosa superioridade de GM. Eis a verdade: não foi bem uma vitória, foi um banho, de alto a baixo. O GM lavou o KS numa banheira de Cleópatra. E com um detalhe que valoriza e dramatiza o feito do brasileiro. Esse banho, essa lavagem, essa surra técnica e tática ocorreu em Cloudbreak, arena que, ainda outro dia, era dominado com mão de ferro pelo careca floridiano.

 

Kelly Slater foto: Ed Sloane / WSL

 

 

Por outro lado, convém frisar que o Leão Novo venceu como quis, dando, através dos minutos, um feérico show de surf e tática (bloquear o careca e manter a prioridade enquanto o careca tomava na cabeça é coisa pra poucos, ou melhor, pra um). Em suma: um triunfo perfeito, irretocável, definitivo.

 

Gabriel Medina gera opiniões divergentes. Os adversários têm-lhe horror. Tem-se o exemplo da rabeada sobre Jordy. Aliás, dizem que Jordy foi apenas uma das vitimas de GM durante o freesurf. A opinião pública mundial condena a indisciplina de GM. Segundo o testemunho dos seus adversários, ele, no mar, faz o diabo. Não se contenta em vencer o antagonista. Faz questão de irritá-lo, de humilha-lo, de levá-lo à exasperação mais profunda. Forçar o cabra a ir embora numa kombi monumental. E no freesurf seu comportamento seria ainda mais temerário!

 

Essa irritação quase internacional contra GM dá o que pensar. Tentemos uma revisão dos defeitos que lhe atribuem. Em primeiro lugar: a indisciplina. É indisciplinado. Muito bem. E aqui eu pergunto: quem é disciplinado neste país? Eu próprio respondo: ninguém. De resto, se vamos tirar do brasileiro a indisciplina, que é uma das suas mais fidedignas características nacionais, ele perderá muito do charme, do panache.

 

Gabriel Medina foto: Ed Sloane / WSL

Gabriel Medina foto: Ed Sloane / WSL

 

Eu acho que existe, entre GM e todos nós, um equívoco. Formamos do surfista uma imagem inexequível. Nenhum top, nem daqui, nem da Austrália, Hawaii, EUA ou da Cochinchina, perde a condição humana. É certo que GM rabeia. Mas todos nós sabemos que os surfistas rabeiam em todos os lugares, especialmente profissionais. Portanto, GM não é o primeiro nem o último que, no mar, vive no “rabo” da onda dos adversários, qualquer mole…já viu. Quem nunca rabeou que jogue a primeira quilha!”*

 

A final contra o líder do circuito era apenas protocolar. Não havia chance alguma do Crab Man Líder Wilko ameaçar GM. Micro Hall faz um trabalho espetacular, mas anos de cachaça não somem assim e Wilko chegou a final sem energia alguma, enquanto GM a esbanjava. Parecia mais elétrico ainda, mas com a calma do felino. Do Leão Novo que acabava de dominar o Leão Velho e usava o tempo necessário para abater mais uma refeição durante a final do campeonato.

 

O ranking pós Fiji mostra 3 brasileiros entre os 5 primeiros. A tempestade continua.

 

Até J Bay…

 

*adaptado da Obra O Berro Impresso das Manchetes – Nelson Rodrigues – fls. 362/364 – Agir Editora Ltda.

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Ivo Surfocrata. Pai, Atleticano Paranaense, Advogado, Surfista, Festeiro, Marrento, Bebedor de Cerveja, Curitibano, Metido a Comentarista de surf e de automobilismo, criador do blog surfocracia e iludido pela justiça.

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