Coluna Surfocrata: Top 34 2016

Esse ano resolvi homenagear a melhor matéria jamais feita sobre os Tops do WCT. O texto de Julio Adler saiu do modo tradicional e separou os 44 tops da época em classes distintas e diretas na revista INSIDE de Março de 1997.Com a devida permissão do autor, fiz uma adaptação (utilizando grande parte do texto original) em homenagem aos 18 anos daquela reportagem, provando sua atemporalidade.

OS IMPERDOÁVEIS

Alguém assistiu o filme, com Clint Eastwood: numa determinada cena Eastwood entra no saloon de velho-oeste para matar o xerife, que tinha torturado até a morte seu melhor amigo. Depois de fuzilar todos os assistentes que um xerife tem nesses filmes, Clint bota a espingarda no rosto do xerife, que diz: Eu não mereço isso, eu estava construindo uma casa…”Merecer”, diz o imperdoável, “não tem nada haver com isso…” e atira.

Imperdoável é um cara sem pontos fracos, ou melhor, com menos do que a maioria. Arrebenta em qualquer onda, é insano em ondas grandes, criativo, estilo impecável, bordas sempre enterradas ao menor gesto. É o que existe de melhor no Tour e no mundo inteiro. Os cinco imperdoáveis – Adriano, Mick, KS, Gabriel e Julian – são hoje, disparados, os melhores do mundo. Tom Carroll, Martin Potter, Curren e Kong, junto do Occy, eram os melhores há 30 anos; KS, Garcia, Occy e Egan era os melhores há 18 anos, e nenhum deles ainda perdeu uma centelha do brilho que tinham.

 

Virá logo um otário dizendo que o Julian Wilson não é tudo isso, ou um outro: – Não acho a Diva essas coisas…Pois eu digo a vocês que Wilson foi o cara mais abandonado pela sorte neste ano de 2015, fez 3 finais, como Toledo, e não venceu nenhuma, sendo que uma não teve nem a oportunidade de finaliza-la (tubarão x Mick…oportunidade em que a Diva mostrou mais coragem que 99,9% das pessoas do planeta, diga-se). É bom de marola, de onda grande, de aéreos e tudo no estilo. É o surfista mais espetacular, desde Fanning e Parko, a sair da Austrália, ponto. Precisa aprender a vencer eventos urgente se quiser desentalar da garganta os títulos mundiais de Medina e Adriano. De talento promissor a promessa cumprida falta só (?) o título mundial. Top 6 do mundo é pouco para ele.

 

 

Adriano de Souza talvez seja a maior encarnação do imperdoável original, é o nosso Tyson; sabe que não é necessariamente o melhor, e sabe que só precisa ser o melhor durante os 30/35 minutos da bateria. Adriano põe medo nos viadinhos que surfam melhor, mas não tem sangue para vence-lo. As vezes sai derrotado, mas sempre volta faminto. Mais determinado, mais concentrado. Li em algum lugar o relato de um fã de Porto Rico. Ele estava no histórico evento do CT por lá, aquele que consagrou o careca com o décimo título mundial. Mineiro perdeu pro Careca por sua própria culpa e se penitenciou com isso. Em algum momento ali se prometeu não repetir esses erros e demorou alguns anos para o Careca voltar a derrota-lo, acho que foi no Rio em 2013. Vejam, isso só porque ele “resolveu” não perder mais pro careca de bobeira. Surfa com elegância e violência, arcos desenhados, corpo comprimido, sempre com uma força controlada, suficiente para molhar os desavisados que arriscam uma olhada de longe. Colocação e faro de tubos impecáveis, herança de muito, muito treino. Adriano coloca a prancha onde quer, com velocidade e precisão só apreciadas pelos entendidos ou em câmera muito lenta, que nos permite observar que sua prancha passa em lugares que poucos conseguem, caindo muito pouco e se adaptando às exigências arbitrais de evento a evento e, quando necessário, de bateria a bateria, de fase a fase. Foi esperto o suficiente para perceber quando precisava de ajuda. Chamou Leandro Breda na hora certa, da mesma forma que chamou a Red Bull de lado e conseguiu um lugar na casa do JOB. Venceu o título mundial. A exemplo de Fanning e do próprio Medina, o seu melhor aflorou após uma lesão. Nada como um processo de cura com muita fisio pra mostrar do que você é feito. Não sofre do que Derek Hynd chamava de “excesso de respeito por seus ídolos”, vence-os sem qualquer cerimonia, tendo como único ponto fraco perceptível o seu índice de derrotas para conterrâneos, algo que já esta em processo de conserto, como vimos em 2015. Se deixarem, vence de novo.

 

Mick Fanning é um veterano jovem, um lutador experiente, já foi a lona mas levanta sempre com a cabeça erguida e a guarda armada. Pronto pra porrada! Treina mais que Mike Parsons, Peterson Rosa e o Dave Macauley juntos. Já passou por lesões graves, dramas familiares e ataques de tubarão mas continua o mesmo competidor imperdoável de sempre. É simpatico e educado com todos, popular demais até para torcer contra. Foi um atleta quase infalível em 2015, legitimando ainda mais a conquista do Mineiro. Digo que perdeu o título após a vitória de Bells. Aqueles tropeços seguidos, fora de sua característica regularidade, foram fatais. Tão fatais quanto os 1000 pontos surrupiados pela regra burra da WSL quando interrompe baterias. Ao invés de dividirem a pontuação dos finalistas (18000), ficam com a pontuação do segundo (8000). Será tão mortifero quanto sempre em 2016, senão mais. Deve chegar em Pipe com chances de sair campeão…de novo.

 

 

KS ainda é um imperdoável. Não vence desde o Pipemasters de 2013, por falta de foco, não de surf. Quem sabe em comparação com o competidor voraz e faminto dos anos 90 e com o estrategista da década passada vemos um KS competindo em velocidade de cruzeiro. Se iniciar o ano bem, tem a força mental necessária para bater qualquer um. Com seus projetos paralelos saindo do papel, quem sabe ele pode voltar a se concentrar apenas no circuito mundial e teremos o final de carreira que o careca merece. Duvida? Eu não. Top 10 do mundo sem nem suar a careca.

 

 

Medina reúne todas as virtudes de grandes surfistas do passado e aponta os caminhos do futuro. Medina é o favorito para o título mundial de 2016. Além dos imperdoáveis aqui listados, o grande obstáculo de Gabriel em 2016 será Filipe Toledo. Em 2015 alguma afobação e má sorte se reuniram para tira-lo da disputa no inicio do ano. Quando as coisas voltaram a encaixar (JBay – perdeu garfado pro KS) juntou pontos suficientes para concorrer ao título mundial na última etapa. Como suas chances dependiam mais dos outros do que dele próprio “resolveu” vencer a tríplice coroa. E o fez com naturalidade dos extra série. Assustador! Reparem como esses caras fazem as coisas…eles resolvem fazer e…fazem! Típico dos extra série. Esta mais forte e surfando melhor do que nunca. Inova dentro e fora da agua. Já supera Neymar na publicidade nacional com caches que beiram o meio milhão de reais, algo inimaginável menos de 5 anos atras para um atleta profissional do surf brasileiro. Previsões são inúteis na carreira fenomenal desse sujeito, ou melhor, são obvias. Sem nenhum ponto fraco conhecido, exceto o índice de derrotas para Adriano. Medina ainda no que nos parece o principio de sua carreira, já conquistou todos os títulos importantes do surf mundial (Pro Jr, Tríplice Coroa e Mundial), se continuar motivado é capaz de quebrar recordes. Nada mais pra provar, um verdadeiro imperdoável.

 

 
INFLUENTES

 
Surfistas influentes são aqueles que criam uma nova escola com características pessoais. Exemplo disso é a influencia que Toledo exerce sobre JJ.Toledo ainda não é o melhor surfista do mundo. Mas será, em breve e por muito tempo. Filipe vem melhorando a olhos vistos, quase diariamente; uma evolução principalmente em ondas dignas. No Hawaii, sob pressão e contra um local casca perdeu porque os juízes quiseram que perdesse. Fez as notas que precisava, como se imperdoável fosse. Entubou de pé, de costas pra uma onda com mais de 8 pés e não foi recompensado. Não há de ser nada. Tem o que provar nesses lugares. Não demorará para lembrarem mais do 10 dele em Teahupoo do que da derrota sem ondas pra Ítalo. Aprenderá a ocupar a onda como JJ. Ganhando mais peso, vai ser motivo suficiente para manter Medina ocupado por anos, disputando o título. Até agora alheio aos excessos do circuito, (tudo indica que nunca cederá a isso graças a uma base familiar sólida e do surf). Ricardo ainda tem uma coisa ou duas para ensinar. No auge de minha empolgação vejo um futuro do surf baseado no que ele fará ou deixará de fazer. Creio que o limite do Filipe seja o limite do surf moderno. Dinâmico, elástico, postura exata. Onde ele chegar será o máximo que chegaremos nos próximos 100 anos.

 

Jordy Smith é atualmente o “América” do Tour. Explico: América é um time do Rio, que tem o apelido carinhoso de “segundo time de todo mundo”. Assim é Jordy, na maioria das entrevistas dos tops. Jordy é um dos surfistas prediletos, depois de Slater, sempre. Seu surf que mescla à perfeição bordas, velocidade e longos arcos, com aéreos altos e controlados está cobrando o preço no seu corpo. Repetidas lesões tiraram o magrelo sul africano da maioria das etapas de 2015. Na verdade, desde 2010 que Jordy não é mais “O” candidato ao título que se esperava (o passe dele foi disputado à tapa, lembram?). Ele próprio, a exemplo da Diva Wilson, deve estar com o cotovelo doendo vendo os brasileiros vencerem os títulos que todos diziam que seriam deles. Talvez tenha sido a última vítima fatal de KS. O careca quando ruma pra um título costuma ter esse efeito colateral. Beschen, Machado, Powell e AI que o digam…

 

 

O jeito de JJ surfar não é nada havaiano, seu apetite por tubos e ondas grandes é. Desde AI o Hawaii não botava um surfista no tour de tanta importância. Completamente inovador, repertório ilimitado de manobras, estilo diferente, inusitado e cirurgicamente preciso nos empresta a ilusão que todos podemos surfar daquela forma. Não podemos. Ninguém pode, acho. Tem procurado aprender (e copiar) algo com Filipe, o que talvez explique porque cai tanto da prancha. Devia tentar a todo custo uma maneira de surfar em campeonatos como aparece em seus celebradíssimos filmes de surf. Aliás, ser um bem sucedido diretor de filmes de surf pode significar não ser um bem sucedido competidor..o bonde está passando e JJ ainda não conseguiu se mostrar como real concorrente ao caneco. Torço para que se encontre como competidor. Um rivalidade dele com os brasileiros, especialmente Medina, seria algo interessante de se observar e excelente para o esporte.

 

CASCA GROSSA 

Casca grossa são os que não temem nada, os destemidos. No futebol seriam capitão do time, o xerife, ou o Capitão Nascimento, se preferir. Tem na raça a maior virtude, se existem os surfistas de alma, estes são surfistas de coração. Owen Wright, Wigolly Dantas, Kai Otton e Josh Kerr comemoram condições de mar que a maioria dos companheiros acendem velas e rezam para abaixar.

 

Uma foto publicada por Henrique Pinguim (@henriquepinguim) em

 

No CT de 2015 aqui no Postinho, fiquei em algumas oportunidades na praia para fotografar o final de tarde. Ninguém na água para encarar as fechadeiras de 3 metros ou mais. Caminhando em direção ao Quebra-mar vi dois malucos passando na raça a arrebentação. Eram Wigolly e seu irmão mais novo. Na hora deu pra perceber o quanto Dantas é um casca grossa. Com uma prancha mínima, surfava sem medo, botava pra dentro, saía, botava de novo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Parecia que as ondas não passavam de meio metro, tamanha a facilidade de surfar e voltar pro pico. Patrocinado pela Quik desde sempre, Wigolly aproveitou as oportunidades e conselhos que teve. KS falou para ele se concentrar em Pipe, já que considerava o melhor jeito de evoluir no Hawaii. Dito e feito. Acredito que, fora Medina, Dantas é o melhor brasileiro no pico. Estreou nos Top 16 do mundo! Guigui é bamba. Só isso já é suficiente para eleva-lo da condição de reles mortal. Eu falei ano passado que apesar dele ter muita quilometragem em esquerdas perfeitas, eu esperava grandes resultados nas direitas. Previsão confirmada. Décimo quinto posto pra ele e subindo.

 

 

Wiggolly Dantas from F2 Produções / Productions on Vimeo.

 

Owen teve um ano e tanto em 2015. Fez mágica em Fiji (já tinha feito mágica em The Box) e disputou o caneco até o final. Acabou se machucando antes da disputa mas deixou sua marca. Costumo brincar que quando um mar tem 10 pés na escala normal, na escala do Owen tem um metrão com maiores. Domina o surf base lip como poucos, entuba como pouquíssimos, voa direitinho, tem um backside poderosíssimo (panca mais forte desde Occy). Não tem pontos fracos surfando, mas precisa amadurecer como competidor para desejar algo mais. Erros como os de Trestles não cabem no cronograma de um candidato a melhor do mundo. É outro que vê, apavorado, o bonde passar, assistindo caras que ele nunca imaginou levando títulos mundiais antes dele.

 

 

Kai Otton tem um surf até certo ponto ultrapassado. Acho ele até meio lento em marolas, mas se transforma quando existem ondas de verdade. Surfa muito mais que compete. É um cara que teria pouca chance no tour pré dream tour, quando ondas de qualidade eram raras. Em Itaúna, nosso maior tesouro, ja mostrou do que é feito. Perigoso e esperto, tem vida londa no circuito, hoje como casca grossa, no futuro como osso duro até a feliz e tranquila aposentadoria na classe operária.

 

 

Josh Kerr já foi mago dos aéreos, tube rider extreme e agora ataca de big rider. Já foi promissor talento australiano no meio da década passada, habilidoso, já foi esperança para um possível título mundial, não correspondeu. Sempre é destaque quando o mar sobe, perfeito ou não. 11º do mundo é pouco pro seu talento de surfista, mas está na medida exata do seu talento como competidor.

 

 

FARSANTES

Aqui é a única mudança que faço no texto original, já que não vislumbro farsantes no tour de hoje em dia. Simpo era o último exemplar na elite. A qualidade das ondas, e o nível de hoje em dia talvez tenham feito esta raça ser extinta do CT…no QS ainda há exemplares, mas são raros.

OPERÁRIOS

Para variar é a maior “classe” nessa análise. Operários são os competidores natos, são os eficientes, surfistas de resultados. A maioria dos operários foram promessas como Pupo e Wilkinson, acomodaram-se ao sistema ingrato da WSL e perderam aquele algo mais que entusiasmava seus admiradores. Peguemos Wilko como exemplo: Quando amador era das maiores promessas ozzies. Cedeu aos excessos do Tour e hoje em dia não é mais que um mero operário trabalhando duro para não perder a moleza do WCT. Um terceiro e 2 nonos foi o melhor que conseguiu em 2015.

WILKINSON from Nick Pollet on Vimeo.

Keanu Asing estreou, lutou, fez bonito em diversas ocasiões para manter sua condição de CT em 2016 pelo próprio CT! Coisa digna, pra um operário. Keanu que me desculpe, mas dos jovens do tour é quem tem o surf mais ultrapassado. O fato de ser havaiano o ajuda consideravelmente, mas ainda assim é limitado. Pouco acima da média de costas pra onda, mas é isso. Terá que correr atras novamente em 2016, sempre de olho no QS para a manutenção da vaga.

Michel Bourez é outro surfista mediano, que teve uma carreira vitoriosa… em 2014 (e só), com duas vitórias no CT. Creio que não se repetirão. Ainda força demais as manobras e cai muito da prancha. É razoável em tubos, o que para um taitiano é pouco. Se machucou ano passado e algo abalou sua confiança.

Bede Durbidge é o severino, é um operário sério, nunca ri fora da Austrália. Sua sorte parece te-lo abandonado há algum tempo. Já venceu Pipe (pequeno) e a Tríplice Coroa. Já venceu CT, mas de uns anos pra cá tem apenas mantendo sua posição. 2015 até que foi um ano melhor. 2 finais e 2 humilhações públicas, mas na bateria final, ao menos. Quando parecia que ia melhorar veio um grave acidente em Pipe. Duvido que inicie o ano em condições. Talvez seja melhor se preparar durante o ano e solicitar o wild card para 2017.

Jeremy Flores é um exímio surfista de ondas (tubos?) grandes, na maior parte do ano é apenas mais um operário. É melhor que a maioria dos Tops, quando as condições realmente importam. Títulos no Hawaii e no Tahiti mostra sua eficiência. Quando entrou no tour era, junto com Mineiro, a renovação. As promessas. Foi melhor que o brasileiro no primeiro ano mas parou por ali. Nunca foi o que se previa. Venceu em dois lugares históricos, de fato. Mas no geral é um cara de resultados medianos e ainda deve recorrer ao QS se a coisa apertar. Tem surf pra mais, só não acho que tenha mais a vontade pra isso.

Please Stay Positive – Jeremy Flores from Desillusion Magazine on Vimeo.

Kanoa Igarashi, Alex Ribeiro e Davey Cathels representam hoje os integrantes inodoros do tour, não fedem nem cheiram. Ocupam os espaços deixados no passado distante por caras como Beau Emerton, Mark Bannister, Graham Wilson, Greg Anderson, Cristiano Spirro, Armando Daltro e Stuart Bedford-Brown. O japinha americano tem um surf moderno, mas terá que ganhar força rapidamente se não quiser virar saco de pancadas do tour. Alex é muito habilidoso e esperto competindo, mas precisa de apoio para viajar e ganhar experiência em ondas de verdade para ter chance de vida longa no tour. E quando digo é apoio de verdade, que de tranquilidade para fazer o circuito pensando em ondas e não em contas. E Cathels tem na competitividade seu grande trunfo, deve dar trabalho no Brasil e na Europa, no mais, 25º devem ser a rotina.

Davey Cathels | Bali from RVCA on Vimeo.

Miguel Pupo trabalhou duro em 2015. Iniciou com um terceiro na Gold Coast, um brilhareco em Trestles e foi só! Teve que correr atras no QS para manter seu lugar no tour. É excelente competidor, tem uma boa escolha de ondas, mas tem caído da prancha em momentos determinantes. Se completar a onda é paciente e esperto para administrar suas baterias, mas precisa aprender a lidar com a juizada. Comemorar (claim) em momentos errados podem lhe custar caro hoje em dia. É preciso também dosar os momentos de arriscar e de ser conservador com mais eficiência para subir no ranking. Se classificar pelo QS não estava nos planos. Ainda acho que seria mais feliz no freesurf…

Jadson André é um desses camaradas que podiam ter a carteira assinada pelo Perrow. É um grande competidor, treina barbaridades, sempre sorrindo, praticamente é um funcionário do WCT, uma instituição indispensável assim como computadores e juízes. Jadson não pode faltar ao circuito. Entuba muito pros dois lados e ainda é penalizado pelos juízes por ser bom demais no aéreo de frontside.

HABILIDOSOS

O que mais irrita num surfista qualificado como habilidoso é a proximidade com o talento. Explico: um surfista habilidoso domina todas as manobras conhecidas, geralmente é veloz, dinâmico, até ousado, mas peca pela falta de força, ou se preferirem, power. Não que isso seja um defeito, um surfista com todas essas qualidades é um talento. Para entender melhor, usando novamente o futebol, o habilidoso sabe fazer embaixadinhas como ninguém; faz embaixadinhas com o pé, a canela, calcanhar, coxas, cabeça e o escambau, mas é incapaz de fazer uma boa partida num jogo de verdade. É um firuleiro, o público adora, eu não.

Kolohe Andino se reclassificou pelo QS. Podia ser muito melhor que seu pai, acabou sendo “apenas” melhor que o velho Dino. A última vez que vi Kolohe quebrar mesmo foi no QS de Trestles de 2011, Pupo venceu, mas Kolohe foi o mais inovador do evento. Veloz e criativo, tinha um surf que chamava aos olhos, tipo Toledo. Só faltava ganhar peso e força. Ganhou um pouco de massa e ficou mais lento e previsível. Bom surfista, mas acabou sendo mais um no tour.



http://www.redbull.tv/videos/AP-1HJAGMS692111/brother
O talento de Jack Freestone é tão grande quanto mal aproveitado. Me perdoem se pareço excessivamente exigente algumas vezes, mas é bom lembrar que levo em consideração apenas o maior nível de surf possível, não interessa aqui o surfista “médio”, só os top 34. Levando isso em conta, sou obrigado a dizer que Jack é muito talentoso, mas como competidor tem muito a evoluir. Estava batendo na trave no QS fazia um tempo. Verá que a distância entre CT e QS é bem maior do que alardeia a mídia que o chama de esperança ozzie. Bom de aéreos e de tubos, mas acho que sofrerá muito neste ano de estréia, principalmente nos picos mais casca grossa. Junto com a Diva e o Jordy no quesito “patroa gata”.

Matt Banting é outro que surfa de salto alto. Sabe fazer todas as firulas, mas usa pouca borda e força nas manobras. Se machucou feio na volta de um aéreo e praticamente estreia em 2016 já que só competiu 5 vezes ano passado. Para falar a verdade sua ausência mal foi notada e acho que sua presença em 2016 também será assim…

Matt Banting -Riding Clean from Quiksilver on Vimeo.

Ryan Callinan é inovador, veloz e fazia tempo que tentava a vaga. Tem tudo para ser um novo Cory Lopez no tour. Faz o diabo com a prancha. Versátil. Pode se adaptar rápido as baterias de 2 atletas e se for o caso, pode dar tanto trabalho nas canhotas de Fiji e Tahiti, quanto nas marolas do Brasil. É candidato a rookie do ano, embora não acredite que consiga passar dos “figurões” do tour com facilidade.

 

Ryan Callinan: Performance Guy from SURFING Magazine on Vimeo.

OSSO DURO

São os caras mais difíceis de bater no circuito. Italo Ferreira, Nat Young, Adrian Buchan e Alejo Muniz vendem cada derrota com preço em dólar inflacionado.

Young é uma máquina de manobras, especialmente para direita, onde suas precisas batidas de backside destoam da maioria. A cada ano melhora como competidor tem ousadia para arriscar aéreos e outras presepadas em baterias importantes, assim como entrar numa disputa de remada contra o Ogro Owen e…vencer. Entende de tubos mas não tem o nível nem a categoria de Medina, Adriano, Toledo ou Owen. Um coadjuvante.

Adrian Buchan não foi tão osso duro assim em 2015, aliás vem apenas mantendo uma posição intermediária fora dos top 16. Foi top 10 no longínquo 2010. É um dos melhores do mundo quando o assunto é linha, sem o repertório variado da maioria dos tops, conquista muitos pontos com um surf vistoso e cheio de estilo e força. Não acredito em muito anos mais para Adrian, mas ainda assim é osso duro em qualquer bateria.

Alejo Muniz estreou no circuito com semi finais, no mesmo ano que Medina estreou vencendo. Se machucou, mudou um pouco o estilo, manteve a força. Caiu fora do tour (de pé, em Pipe vencendo KS e Mick) e recuperou a vaga atropelando no QS. Mostrando definitivamente que seu lugar de direito é na liga de cima. Teve azar num tubo na França, com uma lesão no joelho que o tirou do resto da temporada. Volta para o CT após tratamento, como Adriano, Mick e Medina, deve voltar melhor, mais forte e confiante. Olho nele! Aposto alto no garoto, top 10 nesse ano. Vai vendo.

Italo Ferreira é um osso duro legítimo. Para vencê-lo o cabra tem que ter duas notas acima de 8, senão é caixão. Cai muito pouco da prancha e apesar do estilo meio “duro” sabe harmonizar rasgadas, batidas e voos altíssimos como ninguém. Fatal de frente ou de costas para onda. Bom de tubo. Não tem medo de onda grande, de pedra, de coral, muito menos de cara feia. Venceu KS sem qualquer cerimônia mais de uma vez (ja falei que ele é estreante do ano?). Natural de um point break de direita, já mostrou que sabe ocupar os espaços de expressos como J Bay e Cloud Break, arriscando floaters suicidas nessa última onda que só podem ser comparáveis com aqueles que Rosa era capaz de tentar. Fez a melhor final do ano com Filipe em Portugal e não passa mais um ano sem um título de etapa do CT.

ITALO FERREIRA MOMENTS from Felipe on Vimeo.

TALENTOSOS

Um talentoso é quase sempre um imbecil competindo. Daqueles caras que dão raiva quando estão numa bateria, perdem, vão dar uma caída do lado e surfam mais que todo mundo. Não é regra, mas no caso de Joel Parkinson e Taj Burrow, acontece.

Os dois veteranos do circuito nem sempre foram assim. Já foram influentes, mas nunca foram imperdoáveis.

Dizem que Joel já queria ter saído do circuito em 2015 e a pedido da Billa ficará mais uma temporada. Não duvido. Diferente de Taj, o Cheyne Horan dos anos 2000, Joel já tem um caneco do mundo no bolso, o que para muita gente é o suficiente. Parece o caso de Parko. Com uma família linda e numerosa, me parece que as constantes viagens deram no saco. Tem surf para 20 anos de videos. Um estilo lindo e copiadíssimo. Sabe tudo sobre uma prancha e até competindo (venceu pela primeira vez no CT no séc. passado), mas perdeu a gana. Aquele competidor morreu no fim de 2012.


Taj é incrível. Influente até hoje. JJ parece um jovem Taj com seus videos e prêmios. O único cara que já abriu mão de uma vaga no CT para completar os estudos, parece, perdeu o bonde e jamais será campeão do mundo. Não haverá o arrego de 99/2000. Surfa muito, mas parece, com razão, muito mais interessado na sua jovem família do que no tour.

TAJ BURROW TUBE PIG from Lost Video Productions on Vimeo.

PROMESSAS

As expectativas são grandes, o velho ditado reza: promessa é divida. Kolohe é promessa desde sempre. JJ também. Owen, Julian…em tese são todos promessas, mas para 2016, na minha opinião, apenas os jovens Caio Ibelli e Conner Coffin são promessas.

Conner Coffin é estreante, mas graças à xenofaba impresa americana, tem uma reputação bem construída e já é promessa tem um bom tempo. Finalmente passou da barreira do QS (ainda bem). O ex pupilo de Gerlach é, como já mencionei com Wigolly, daqueles que tem o surf feito pra esse tipo de circuito, mas encontrava nas marolas do QS o obstáculo para o paraíso, uma vez dentro, creio, deva evoluir a olhos vistos. Esse obstáculo, não se engane, é grande. Grandes nomes já sucumbiram a ele, JOB, Binho Nunes, Trekinho… Possui uma lista enorme de fãs, já que aparece em videos e revistas mais que 30 dos top 34. Podia te-lo classificado como talento. O moleque é bom, sem dúvidas. Tem um surf lindo, totalmente baseado nas bordas. Bom de tubo e de aéreo. Terá que ralar no inicio do ano, mas é das minhas apostas para os 16 melhores do ano que vem.


Creio muito no jovem do Guarujá que apareceu para o mundo na kombi de 20 pontos do Medina no King of Groms. De lá para cá foram alguns ano ralando no QS e muito treino em onda boa, especialmente no Hawaii, lar de sua namorada. Ibelli é desde já um dos melhores do circuito em ondas de verdade. Podia constar como uma casca grossa, mas como é estreante resolvi coloca-lo aqui, como promessa. Vale lembrar que até hoje todo campeão do mundo brasileiro foi campeão mundial Pro Jr antes. Caio já tem esse caneco (Freestone vice)…só falta o outro. Assim como Alejo, aposto alto no Caio, e acho que finaliza nos top 16 no ano de estreia.

Caio Ibelli | Sol y Olas from CaioIbelli on Vimeo.

A FONTE

Isso era o melhor que você podia conseguir com 5 pratas no bolso em 1997. Março para ser exato.

 

 

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Ivo Surfocrata. Pai, Atleticano Paranaense, Advogado, Surfista, Festeiro, Marrento, Bebedor de Cerveja, Curitibano, Metido a Comentarista de surf e de automobilismo, criador do blog surfocracia e iludido pela justiça.

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