Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Aqui é Papo Reto

Fala um pouco de você Tio Verde. O que veio primeiro, o skate ou a fotografia?

Primeiro foi o skate. Tinha um pessoal da minha rua, que eu morava lá no Méier, na rua Lucídio Lago, eram  6 ou 7 cabeças que andavam de skate. Mas em 72 a gente via a galera da rua Tenente Costa, da  RAC (Rua Aristides Caire), que descia a Tenente Costa. Em 75 a gente já dominava aquele pico porque muitos dali pararam de andar, foram ver outras coisas também. A gente começou a andar naquela área e andávamos muito por dentro do Méier, tanto que existia o Oscar, o Osmar, o Cesinha Chaves, mas a gente não tinha contato nenhum com eles. A nossa galera era realmente muito fechada e a gente andava pelas ruas internas do bairro, as ladeiras de Maria da Graça, que até hoje não vejo a galera indo, ninguém sabe chegar até elas. Basicamente o começo foi isso. Em 77 eu fiz minha primeira foto de skate, que foi do Tony, que infelizmente papai do céu levou pra descansar. Foi na entrada de um estacionamento de um prédio onde a gente também andava, na rua Mosoró, no Méier. A partir dai comecei a fazer fotos e entrei pra TV Globo para ser cinegrafista. Nesse meio tempo, tinham alguns fotógrafos na área que estavam em processo mais avançado, como o  Eric Schneider, que era um moleque na época e alguns anos depois veio a ser o presidente da Warner do Brasil. Grande fotógrafo Eric Schneider, que me ensinou muita coisa. Paulo também, que era um fotógrafo negão, forte, e ele seguiu um circo mambembe, foi pra Bolívia e eu nunca mais o vi, mas era um puta fotógrafo também, cada um com sua arte. Tinha o Afonso também, que hoje mora na Europa. Era um grupo de fotógrafos que eu andava. Ali eu fui me aprimorando, fui gostando de fotografia.

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Seacult Bown Jam 2013 Foto:: Ronaldo Nogueira

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Seacult Bown Jam 2013 Foto:: Ronaldo Nogueira

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Então foi fotografia profissional mesmo, não só de skate

Eu trabalhei muito fotojornalismo. Cheguei a trabalhar em jornal, fiz alguns trabalhos para jornal de bairro, algumas fotos pro JB, que nego falava que era o jornal comunista da época. A menina que eu tinha um relacionamento na época era jornalista também, trabalhava no jornal dos esportes. Isso tudo abria caminho pra eu fazer minhas fotos, foto jornalística, e eu fui levando um tempo nessa onda. Fotografei surf também, cheguei a comprar um equipamento para fotografar surf, mas surf não dava dinheiro e nem era a minha paixão. Isso ficou esquecido, valeu mais como experiência.

 

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Cup Noodles Bowl Jam 2014 Foto: Ronaldo Nogueira

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Cup Noodles Bowl Jam 2014 Foto: Ronaldo Nogueira

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Você falou muito do Méier. Foi ali que começou o movimento de ZN?

O movimento ZN foi um movimento que apareceu nos anos 90 com uma galera Bruno Funil, Flavinho , Lampião, uma galera forte. Na verdade o movimento ZN é o movimento da XV hoje, que eram pessoas de vários lugares do Rio de Janeiro que vinham pro Méier pra andar. O Méier sempre foi a vanguarda. Naquela época tinha muito surfista que viajava pro Havaí, pra fora. Não era uma coisa restrita só pro cara que morava em Ipanema. Não existia Barra. Era Ipanema, Copacabana… Então o Méier sempre teve isso, esa identidade própria. Eu venho de uma geração antes dos anos 90, que é a geração que andou no estacionamento do Norte Shopping. A geração do movimento ZN é uma geração que eu não acompanhei.A minha geração é anos 70, que é a primeira ou segunda geração do skate.

 

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Foto: Ronaldo Nogueira

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Maresia Vert Jam 2013 Foto: Ronaldo Nogueira

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Família Skateboarding

Na verdade, lá em casa, por mais que não queiram, todo mundo vive, porque eu particularmente vivo isso e vivo disso. Vivo de fazer uns eventos, trabalho em dois empregos com skate e tento ajudar ao máximo vários moleques ai, que eu prefiro não falar o nome, mas ajudo com tudo. Dou tênis, eixo, roda, todo mês quando eu posso, quando eu tenho condição. Agora não, que eu estou com o salário atrasado e não dá pra fazer isso. Infelizmente, tive que interromper isso, mas é o que eu tava fazendo. Tenho um site que é o Skate na Web, que agora nossa tendência é não ficar preocupado em arrumar anunciante, que é importante, mas também é importante fazer collabs, que é o que a gente tá tentando fazer agora. Nos dois anos do site, que foi em dezembro, foi feita uma parceria com a Urgh, um collab do Eric, que é o editor do portal. Já posso adiantar que quando fizermos 3 anos teremos um collab com a marca DNG, que vai ser um collab de boné e blusa e vai ser bem legal. Além de muitas coisas que vão vir com certeza.

 

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Brasileiro Street Skate 2015 Foto: Gustavo Suisso

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Brasileiro Street Skate 2015 Foto: Gustavo Suisso

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Como é sua relação em casa? Como você conheceu sua esposa? 

Eu malhava, fazia aula de academia. Era meio punk com essa parada de aula de ginástica. Não gostava de levantar halter, essas coisas, meu negócio era ginástica mesmo. Eu conheci a Rita um dia no bar da esquina, nós namoramos 4 anos, já estamos há 24 anos juntos. Ela realmente tomou um susto na época, ela reclamava. Toda mulher que tem um cara tem que ter alguma coisa em casa, tem que botar comida pra dentro de casa, tem colégio das crianças, uma eventualidade que possa acontecer, em termos de saúde, e ela perguntava “como a gente vai fazer?”. Então arrumei uns empregos ai, trabalhei em loja de fotografia, fui gerente de uma vidraçaria… Quando um dia eu… Tinha um cara que era funcionário da Petrobrás, alto executivo, que chegou e falou assim “eu vou sair do meu emprego”. Eu falei “cara, você é louco” e ele disse, “mas todo mundo fala isso mesmo, que eu sou louco, só que eu vou correr atrás do meu sonho”.  E o sonho dele era abrir uma sala de degustação de cervejas e ela existe até hoje. Eu esqueci o nome dele, mas ele foi o ponto de partida pra eu tomar a decisão que eu tomei. Uma vez eu estava sentado no balcão da loja, ele chegou e falou “tá triste, né Tio verde? É o que eu te falo, já pedi minha demissão, e já to indo lá pro meu emprego que é minha sala de degustação.” Então, chegou uma época que eu saia do trabalho sexta-feira, pegava o ônibus até Curitiba, que era mais de 16 horas de viagem, pra cobrir um campeonato sábado de manhã, fotografava sábado e domingo, acabava o campeonato eu ia direto pra rodoviária pra pegar o ônibus pra voltar. E ia direto de manhã pro trabalho. Eu acho que o skate já tava ocupando mais, era um negócio de investir em mim. Não era nem ganhar dinheiro com skate, mas as fotos que eu tinha, eventos que eu poderia produzir legal. Eu acho que o Rio de Janeiro em uma época carecia de alguns eventos e eu tive a ideia de fazer dois eventos que ficaram na memória da galera. O Skateboarding Day, o Skate for Girls, que foi a primeira tour de skate feminino no Brasil. Ninguém fazia tour de skate feminino e eu fazia, trazia meninas de outros estados pra cá. Então quando cheguei pra minha mulher e falei que ia sair pra tentar a sorte no skate com as fotos, ela simplesmente falou “cara, eu trabalho e o que eu puder, eu assumo a casa enquanto você tá correndo atrás”, foram essas as palavras da minha mulher. E é o que a gente tá vivendo até hoje, o meu e o dela, e estamos ai.

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Como é a relação com seus filhos?

 Minha relação com meus filhos e o skate é bem gozado, porque quando eu voltei a andar no início dos anos 90, eu ainda não tinha a Gabriela, dei uma parada e voltei no início dos anos 2000. Quando eu peguei o skate, a Gabriela tinha uns 4 anos, ela gostou e desceu uma ladeira. Eu fui pra uma dessas ladeiras secretas que tinha em Maria da Graça. Eu até tenho essa foto, que saiu na 100% Skate. A Gabriela gostou e continuou andando. Ela tem o estilo bem diferente, não gosta de competir, ela prefere viver o lifestyle do skate. Anda pra cacete, anda legal, dá o rolé dela. Já a relação com o moleque é  o contrário. O moleque ainda tem 10 anos e ainda tá naquela fase dos amiguinhos de escola, jogar Bayblade, ver os desenhos no Cartoon, mas eu sei que quando ele crescer, chegar aos 15 anos, que ele já tiver mais homenzinho, ele já vai olhar o skate. Eu não gosto muito de forçar isso não. Eu acho até legal porque, você imagina 3 pessoas em casa falando só de skate. Entendeu, velho?! Então acho que minha esposa já teria pirado. Então eu acho que o João na verdade me leva pra outro mundo que eu não estaria se ele andasse de skate, que é ir ao cinema, comprar coisas completamente diferentes do skate, ele me pede coisas totalmente diferentes…

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Ver o jogo do Flamengo com ele

 Jogo do Flamengo ainda não fui não, véio. Mas eu pensei em levar ele. Eu levei ele na loja, falei “papai vai comprar uma blusa do Flamengo do Ronaldinho”. Na época o Ronaldinho tava jogando no Flamengo. Ai ele “Ah não, pai. Na rua vende”. Eu falei “Não, você realmente é Flamengo, mas vamos comprar em uma loja que é melhor”.

 

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Estadual Street Skate em Cabo Frio Rio de Janeiro Foto: Gustavo Suisso

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Estadual Street Skate em Cabo Frio Rio de Janeiro Foto: Gustavo Suisso

De onde vem Tio Verde?

Foi na época do NES da primeira versão da lojinha do NES. Eu fui um dos primeiros alunos do NES, mas ninguém sabe. Na minha volta, em 2004, que eu já estava na pilha do skateboard, já tava com máquina fotográfica na mão, ai um amigo meu falou “Tem um parceiro meu que dá aula de skate que vai começar agora no sábado”. Fui pra lá, conheci o Funil e comecei a fazer as aulas, desenvolvi de novo a dar o rolezinho. Foi quando o Funil fez um obstáculo, uma 45, e ia um atrás do outro. Como eu tava pensando na morte da bezerra, eu tava parado, ai o moleque que foi o primeiro, ele até ganhou o primeiro campeonato do NES, mas esqueci o nome dele, ele chegou e ficou gritando “Tio, tio!” como ele não sabia meu nome e nesse dia eu tava todo de verde, calça do exército e camisa verde, “Ô tio, ô tio verde!”. É engraçado isso, porque eu chego em outros estados e o pessoal vem e fala “tenho um do bom aqui pra tu”, mas eu não fumo não. Nego pensa que eu sou o rei do bagulho, mas eu não sou. A parada é bem diferente.

 

Movimento XV, a partir de 2008, como foi isso?

Na verdade minha participação foi através de fotografia, tipo, de registrar. Eu só deixei de registrar um ano, que foi o ano retrasado. Mas eu tenho documentado todos os anos de manifestação da Praça XV, todo o seu começo, mas não sou ativo.

 

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Oi Bowl Jam 2015  Foto: Gustavo Suisso

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Oi Bowl Jam 2015 Foto: Gustavo Suisso

 

Qual foi seu primeiro registro?

 Foi a primeira reunião, da primeira passeata na Praça XV, que nem era I Love XV, era Legalize Já. Isso tem uns 5 ou 6 anos. Até então eu tenho uma amizade muito grande. É muito difícil fotografar um cara da XV, porque ele não anda para aparecer em revista. Então, eu tenho a honra de ser chamado para tirar fotos que só eu tiro, pode ter a ocasião de outros tirarem. Tirar fotos do Wilson Domingues, Rafael Pharrá, Gabriel Mickey, do Alethos Messias, que são caras difíceis de chamar pra fotografar, eles não saem e não ligam para fotografar eles. Então a minha relação com a galera da XV é muito forte, com o Fernando Cardoso, com o Agnaldo, Fabrício Sacramento, sabe… Com a galera da XV que está ali desde o começo, eu tive o prazer e participar e tive a honra de fazer um evento na XV, que foi o aniversário do Bate bola, e foi um prazer tremendo. Fazer um best trick na borda e estar na presença dos principais skatistas do Rio de Janeiro. Mentex, que nem participa mais de eventos tava lá, Rafael Gibson, uma galera que respira skateboard…Bem legal mesmo, eu amo a XV. I love XV.

E os projetos pessoais?

Como eu falei no começo, eu to engajado nesse negócio de fazer collab interessantes. Eu to pensando agora, mais pro final do ano em pegar o trabalho do Fábio Ribeiro, que faz um trabalho com guache fantástico. A ideia é passar uma foto minha pra ele fazer em guache, e esse desenho a gente passar para blusas. Esse é um negócio que eu to pensando mais pra frente. Tem a exposição que vai rolar agora em maio, que eu estou muito feliz. Não é nem pelo fato de ser negro ou não, porque é difícil pra preto e branco mesmo você fazer uma exposição hoje em dia no Brasil. Eu me sinto um privilegiado em poder fazer uma exposição como é feita em grandes centros culturais e os grandes espaços de arte da zona sul. No Méier também, bairro onde eu nasci, no centro cultural que é o único da zona norte e não fica devendo nada a ninguém, com toda a infraestrutura. Isso que eu espero, fazer uma grande exposição. Já estamos fazendo a escolha de fotos, pra poder mandar ampliar, deixar adiantado. Quero todo mundo lá.

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Foto: Ronaldo Nogueira

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Foto: Ronaldo Nogueira

 

Transição do filme pro digital, como foi isso?

 Eu peguei a câmera digital logo quando ela saiu. Mas foi engraçado pq meu pai tinha falecido há uns 6 ou 7 anos, ai em um dia chuvoso, tocou a campainha lá de casa e um senhor de gravata perguntou por ele. eu perguntei “brother, o que você quer com ele?” Ele explicou que era advogado dele e ele entrou com uma ação na justiça e vocês têm uma graninha para receber. Falei que ele tinha falecido. Dividi o dinheiro om meus três irmãos e minha mãe e pude comprar minha câmera. Quando eu comprei a câmera digital, ela não me dava a opção de mexer na abertura de diafragma e nem velocidade. O iso podia. Facilitou um pouco, porque você colocava no automático e ele já te dava a velocidade e tal. Mas eu apanhei um pouco porque a velocidade da máquina automática é sempre menor que a velocidade do skatista. Então até você aprender algumas funções para você chegar no ápice, também tem o equipamento, que você tem que extrair o máximo. Na minha última câmera que eu tava antes de chegar na 7D, que era a T3, eu já tava usando ela no limite, tirando fotos excelentes. Tanto que quando eu cheguei na 7D, eu apanhei bastante. Pegava tutoriais da Canon desesperado porque tava muito claro. E eu vim já de uma base de T3, onde eu já estava espremendo ela no limite dela. To reaprendendo de novo com a 7D, está sendo bem legal. Mas realmente eu sinto que hoje… eu ainda tenho lá a minha Canon  AE1, e ainda vou botar um filminho pra fazer umas fotos em breve, porque ta todo mundo fazendo isso, virou moda. Hoje em dia virou moda fazer foto de filme e usar só o Instagram. Ai e vou fazer isso, revelar as fotos com uma capacidade técnica bem maior do que eu tinha há 20, 30 anos atrás e vamos ver o que vai sair ai.

 

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Foto: Ronaldo Nogueira

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Foto: Ronaldo Nogueira

 

Manda um papo reto por um skateboard melhor

 O papo reto é muito gozado porque é na hora. às vezes to vendo o jornal e o repórter dá aquela dica… Então o papo reto vai mais disso, coisas que eu to sentindo mesmo… Mas acho que o papo reto para o skateboard carioca, eu acho que é parem e falar. Eu venho de uma geração em que as pessoas faziam as coisas e não queriam promoção. Hoje se faz e se bota muita coisa fiz isso, fiz aquilo, todo mundo quer ser o pai da matéria. Não queira ser o pai da matéria, você nunca vai ser esquecido pelo o que você fez. Então vamos fazer mais e falar menos.

Galera só pra finalizar… Queria agradecer ao Cláudio Cassetti pelo apoio no Parque de Madureira, os monitores que mesmo com salários sempre em atraso, estão lá prontos para o trabalho e aos coordenadores da Vila Olímpica do Encantado por me ajudarem nos eventos na plaza do Engenhão e ao André Ferraz pelo apoio dado a mim e ao skate há décadas no bairro do Méier. É isso!

 

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Foto: Ronaldo Nogueira

Drope Entrevista Júlio Tio Verde. Foto: Ronaldo Nogueira

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Carioca, flamenguista e ex surfista, Gustavo Suisso é fotógrafo e representante comercial da área de skate. A fotografia, juntamente com o skate, se transformou em paixão a partir da dedicação de seu filho ao esporte. Hoje em dia, faz a cobertura de campeonatos e sessions de skate para mídias especializadas

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